Bye, Bye, União Europeia

Rule, Britannia! Britannia, rule the waves!

Britons never, never, never shall be slaves.


É estranho alguém começar um artigo com um trecho de música, ainda mais, uma tão bela e patriótica, que poucos devem conhecer, mas a letra parte de uma canção britânica que se refere à potência que foi e sempre será o Reino Unido. Desde 2016, começaram os rumores de uma baixa no ‘louvável’ bloco econômico europeu. E os britânicos, como na melodia, não poderiam mais ser escravos desse bloco retrógrado.

Para falar de um novo Reino Unido, começarei falando do início da relação conturbada com o bloco continental europeu, desde sua chegada à União, os britânicos tiveram alguns desentendimentos: o primeiro e grande atrito foi uma discussão a respeito da criação de uma moeda comum, visto que os ingleses pensavam que não poderiam rebaixar-se a uma moeda fraca, pois, desde os primórdios do capitalismo, conhecemos a libra esterlina como sendo uma moeda forte. Por fim, a ação culminou na queda da Dama de Ferro, que já dizia que essa ação seria “a rush of blood”. A citação faz referência ao fato de que países mais fortes estariam cedendo suas políticas monetárias estáveis e aderindo à mesma moeda de países em situação de caos econômico ou que poderiam vir a ser um alerta vermelho no futuro. Desde então, os britânicos se submeteram à paridade monetária, com o então marco alemão e hoje euro, mas nunca se subordinaram à adoção do euro como moeda oficial. No entanto, essa tentativa de paridade com o marco durou muito pouco e o caos cambial foi tão grande que, em 1992, os britânicos deixaram o acordo, frustrando fortemente os prós União Europeia (UE).

Após a desordem cambial, houve poucos atritos entre os dois, porém, o início da saída britânica começou, de fato, com a crise de 2008 e com o conflito imigratório que o bloco enfrentou. A respeito da crise econômica, os britânicos foram responsáveis por “socorrer” países como Itália, Grécia, Espanha e Irlanda -conhecidos como ‘PIIGS’ em inglês-, já que eram os países mais afetados na Europa na época. Aqui vemos outro ponto da crítica britânica ao bloco: o Reino Unido tinha a missão de sustentar a sua economia e também contribuir para com pacotes econômicos, a fim de que pudesse, então, auxiliar as economias que gastavam horrores. Isto posto, é relevante ressaltar que o Reino Unido, desde sua entrada na UE, sempre foi um contribuinte generoso; a crise de 2008 é um exemplo disso, pois, além de socorrer sua economia, ele também manteve no orçamento a contribuição bilionária para o bloco, para, então, ajudar na recuperação de outras nações. Sendo assim, acabou se tornando uma nação que contribui mais e recebe menos. À luz dos argumentos apresentados, fica evidente que economias tidas como fortes acabam por sustentar países que, infelizmente, são considerados mais fracos e tendem a ser “gatilhos” para possíveis crises. Nesse sentido, com a saída do bloco, o Reino Unido coloca um ponto final a essa ideia de generosidade econômica infinita, na qual países possuem duplas responsabilidades: se auto socorrer e de ajudar o “vizinho” que está em apuros.

Dessa forma, surgem algumas questões: seria o Reino Unido capaz de se manter após o egresso do bloco? Quem ganha e quem perde com essa saída? O mundo está navegando em águas antiglobais?

Assim, a primeira pergunta, respondida levando em conta apenas o aspecto de investidor, seria sim. No curto prazo, o Reino Unido pode ter uma leve defasagem em sua balança comercial, contudo, fora do bloco, os britânicos conseguem fazer acordos comerciais de seus próprios interesses com qualquer país do mundo, sem ter que enfrentar burocracias europeias; como já está sendo visto com a distribuição da vacina anti-covid, com o Reino Unido apresentando taxas muito maiores de vacinação quando comparadas com países da UE, - já que o país fez contratos diretamente com os fabricantes de vacina-, enquanto que os remanescentes do grupo precisam ficar dividindo as vacinas entre si. Dessa maneira, o Reino Unido apresentará um outro gasto a menos, devido ao fim da sua contribuição para o bloco, que poderá ser redistribuído em educação, saúde pública e/ou segurança interna.

Por outro lado, a segunda pergunta é bem subjetiva, na medida em que alguns jornais tentam colocar o Reino Unido como perdedor. Todavia, no âmbito econômico ilustrado no parágrafo anterior, acredito que ele saíra ganhando, pois do lado continental, a UE acaba por perder um dos maiores financiadores do bloco, o que acaba sendo um sinal de alerta, pois outros países podem decidir tomar o mesmo rumo que o Reino Unido daqui uns 5 ou 10 anos, caso este apresente-se melhor economicamente. Desse modo, para o lado britânico, é hora de tentar recuperar seu posto geopolítico mundial, com uma economia mais aberta a acordos econômicos. Já do lado UE, é a hora de “desengessar” o bloco, deixando os países mais livres para tomarem suas próprias decisões, tentando mostrar que não é possível sustenta-los ‘’como um bom pai’’ faz com o ‘filho’ que arruma encrenca. Destarte, não necessariamente haverá um ganhador e um perdedor, apenas resta saber quem saberá aproveitar melhor as oportunidades apresentadas.

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