Deus e Liberdade

“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? […]” — Nietzsche, Friedrich.

Tenha a imagem divina surgido a posteriori do ser humano ou tivera ela concebida coletivamente por um algum tipo de ideia fundamental inata, independentemente da sua natureza, o impactante argumento de Nietzsche é difícil de ser evitado. É inegável também que tal pensamento tem caráter pessimista e cético, e que tenha nos levado a diversos entendimentos, alguns até radicais: banalizam e buscam agredir toda e qualquer figura de Deus e da religião, a sociedade, os indivíduos e até o livre ato de credo e pensamento.

Começando pela religião e Deus, o argumento seria de que o próprio ser humano criou a imagem de Deus e a instituição religiosa, ou seja, nada mais são do que ideias abstratas, moldadas pela sociedade para que apenas suprissem as vontades e os prazeres mundanos e egoístas. Portanto, segundo essa perspectiva, sendo ambos frutos de um construtivismo social — e sabendo também das peculiaridades e adversidades culturais, conhecimentos e princípios sociológicos —, poderiam somente servir como um instrumento político de controle de massas, objetivando atender aos desejos do alto escalão da estrutura política, mesmo que certas “mudanças”, “acontecimentos inesperados” e “interpretações diferentes” houvessem de surgir. Não discordo completamente, mas se Deus é onisciente, onipresente, onipotente e sobretudo transcendental, Ele não haveria de ser passível de ser imaginável, nem de ter características tão especificadas, afinal, se o ser humano é limitado ao plano que vive, aprendendo com suas experiências carnais e contextuais únicas, assim como um indivíduo dos primórdios da sociedade humana não conseguiria nem sequer imaginar o que acontece e como é nosso presente momento, nós não teríamos a capacidade de saber o que e como é Deus, nem suas doutrinas (se é que Ele toma partido algum).

Dito isso, como somos seres independentes e, ressaltando, não somos concebidos com conhecimento ilimitado, é natural termos visões diferentes sobre tudo que nos cerca. A causa dessa incerteza, dessa abundância de criatividade, poderia ser nada mais que a liberdade de pensamento e de livre ação que Deus proporcionara a nós, seus súditos. Por sermos ignorantes, procuramos, debatemo-nos, nunca nos saciamos e não desistimos de saber cada vez mais sobre cada pequeno e grande mistério que nos envolve. Dentre esses quebra-cabeças de infinitas possibilidades, por sua vez, o mais perto que conseguimos alcançar sobre conhecer sobre a divindade —  e havemos de ter o orgulho mesmo que probabilisticamente isso seja praticamente igual a zero por cento (afinal, estaríamos dividindo um por infinito)— é que a Ciência indica de certa forma a existência de um criador: é inimaginável que a perfeição do funcionamento de todas as coisas seja apenas um mero acontecimento espontâneo que visa o equilíbrio, e que o tudo passou a existir à partir do nada, análogo às falhas de roteiro de um filme malfeito

Tratando agora sobre sociedade e indivíduo, centro das atenções por conta da enorme polêmica que eles causam na mídias, aqueles que dizem ser seus defensores, considerados os portadores da sabedoria suprema e dos métodos corretíssimos — que na verdade são aqueles que foram seduzidos por discursos enganosos, tóxicos e irresponsáveis — agem cegamente com ódio, repúdio e irracionalidade sobre várias instituições sociais (“Sleep Giants”) sob o pretexto de consentirem o “inimigo fundamental”: todas as mentiras paternalistas, fascistas, preconceituosas, ignorantes, falaciosas, materialistas, egoístas, individualistas (leve em consideração que não se trata da minha concepção, mas dos socialistas), etc. Ademais, sendo eles zeladores do coletivismo, ou seja, ignóbeis e coniventes, quando conveniente a eles e ao seu movimento, logicamente, estariam pisoteando inúmeros pensadores liberais, mas, principalmente, o pai do liberalismo político, John Locke. Semelhantemente a um futuro onde a liberdade e a esperança seriam mínimas ao serem tidas como reféns por governos e Estados extremamente coercitivos e por programas de repressão e cultura de massa, uma sociedade constituída por uma massa alienada e subordinada também seria passível de ser brutalmente “cancelada” em várias áreas em prol de uma agenda revolucionária, que usa descaradamente como argumento todo e qualquer anacronismo barato, cairia no mesmo feito, reduzindo contra intuitivamente a própria diversidade de pensamento que supostamente estariam defendendo através da desconstrução social, até porque qualquer um que os questionar também se tornará um alvo a ser eliminado, marginalizado. Exemplificando, temos: a queda de igrejas cristãs como as do Chile; a política da Sharia; a perseguição, tortura e aprisionamento nos campos de concentração alemães e chineses de indivíduos que o governo considerava indesejável; a catequização forçada nos indígenas e dos africanos; a cultura do cancelamento, etc.

Diante dos fenômenos supracitados, concluo dando meus sinceros pêsames a Deus e, em seguida, a todos os pensadores liberais e à parcela da população que de forma relutante e resiliente ainda manteve lúcida e não se deixou ser corrompida por ideais hipócritas e falhas. Deus teria talvez feito de forma visionária o melhor plano para que sua criação pudesse ter ilimitada liberdade de escopo de imaginação sobre ele, mas nós o destruímos e o limitamos, por meio de movimentos que tem imposto uma ideia única e obrigatória de crença, portanto, gerando desperdício e desrespeito. É de extremo pesar que todo o senso de respeito, tolerância, liberdade de pensamento, livre arbítrio, cultura e valores morais sejam reduzidos a apenas um pedaço pútrido de estrume instrumental de nossos deuses, escrito com “d” minúsculo porque se trata de falsos deuses, nada grandiosos, justos ou benevolentes, apenas cruéis, coercitivos, manipulativos e populistas, verdadeiros vermes que se infiltraram em diversas esferas sociais, difundindo desgraça a todos os cantos.

Finalizando, eu reitero que concordo com Nietzsche em relação à causa da morte e à ideia de que substituímos Deus por alguns idiotas de nós, mas novamente discordo muito com o meio sangrento, irresponsável, que banaliza e é autoritário que uma parcela da população tomou e continua a tomar. Particularmente, eu não sei como uma Democracia Liberal deveria agir com relação a essa problemática: intervir acabar se contradizendo ou não intervir e deixar que a raiz do problema se mantenha e se difunda ainda mais livremente. Contudo, gostaria agora de saber sobre você: como você enxerga essa relação entre Deus e liberdade?

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