Muito Além de um Ativo, uma Liberdade.

O ano de 2020 foi bastante impactante em nossas vidas. Tivemos que nos adaptar a uma realidade desconhecida, nunca antes vivida desde a Gripe Espanhola, grande pandemia do século passado; perdemos nossa liberdade de ir e vir num piscar de olhos; vimos nossas empresas serem fechadas e muitos empregos perdidos. É nessas horas que buscamos sair da zona de conforto e vamos atrás de alternativas: um emprego novo, a criação de um negócio e, até mesmo, começar a investir. É nesse último item que quero me atentar, pois, durante a pandemia, foi percebido um número gigantesco de pessoas que passaram a entrar na luta por ações e começaram a desbravar o temido mercado da renda variável, e alguns ainda aproveitaram para “surfar na onda” das criptomoedas, ponto central desse texto. Contudo, nesse artigo, não irei julgar se as criptomoedas são ativos ou são reserva de valor ou se são um bom investimento ou não. Quero ir a uma discussão profunda de liberdade - não somente financeira, mas sim a liberdade de direitos, como o de ir e vir ou o de se expressar-, devido ao fato das criptomoedas estarem sendo de suma importância para algumas pessoas que tiveram seus direitos básicos retirados por governos tirânicos.

Primeiramente, é relevante mencionar que o surgimento da criptomoeda ocorreu no ano de 2008, com o Bitcoin, data de quando foi publicado o primeiro paper sobre ela [1]. A priori, o Bitcoin surge como um facilitador para transações financeiras, inacessíveis aos Bancos Centrais, sendo, portanto, algo privado. Além disso, por ser algo digital e de pouco acesso dos BCs, a moeda não teria como ser inflacionada, visto que a inflação é gerada através de um aumento nos preços dado uma expansão da base monetária, vide Brasil no boom pós-pandemia. Logo, por ser fora do alcance estatal, a população teria um certo grau de liberdade avançado e isso seria, de certa forma, provocador para governos que gostam de defender centralizações excessivas. Nesse ínterim, percebemos que os usuários de criptomoedas se encontram em maior número em países que apresentam graus baixos ou quase inexistentes de liberdade política; ou seja, as criptomoedas passaram a ser um porto seguro para aqueles que vivem em discordância econômica com o governo e receiam ter suas contas congeladas como forma de repressão.

Visto que um simples algoritmo criado a tão pouco tempo se tornou um refúgio para opositores de alguns regimes, os governos, juntamente de seus BCs, dão um passo mais ousado com a tentativa de criar criptomoedas estatais, que vão de encontro com seu propósito original. Além disso, governos vem buscando alternativas para taxar riquezas provenientes das criptos ou, ainda, de proibir o uso de tal moeda em seus países[2] — o que geralmente ocorre em países que não possuem nenhum grau de liberdade. Do ponto de vista político, isto era apenas questão de tempo, visto que, obviamente, regimes autoritários não deixariam seus opositores financiarem campanhas contra o totalitarismo nem tampouco deixariam as pessoas escaparem dos “tentáculos estatais” no campo econômico. À exemplo disso, já dizia um dos maiores genocidas e ditadores europeus, Benito Mussolini: “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Sendo assim, caso a ideia de criptos estatais saia do papel- o que, particularmente, não duvido que aconteça num prazo de, no máximo, 3 anos- os governos se tornarão ainda mais autoritários e conseguirão inflacionar uma moeda que teoricamente não seria inflacionável.

Em suma, as criptos vieram como uma forma de desburocratização do sistema financeiro, bem como uma maneira de aumentar a privacidade dos indivíduos. Nesse aspecto, ela colabora com os residentes de países totalitários, na medida em que os governos (ainda) não têm a capacidade de bloquear transações feitas por elas. Portanto, enquanto no Brasil buscamos uma rentabilidade com o ativo, em outras nações, pessoas buscam muito mais além de uma mera rentabilidade: elas buscam sua liberdade.


[1] NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. 2008.

[2] CHINA alerta sobre especulação com criptomoedas e proíbe uso em pagamentos. UOL, 19 de maio de 2021. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2021/05/19/china-especulacao-pagamento-criptomoedas.htm.Acesso em: 21 de maio de 2021.

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